Abridor de entardecer: quatro fragmentos de diário

Abridor de entardecer: quatro fragmentos de diário

6 de abril de 2021

Encontrei-me na paisagem completamente branca. Dia branco, parede branca, as máscaras pff2 penduradas — brancas e azuis. Todo o planejamento vai para os ares hoje. Ontem também (Procrastinei às favas. Fórmula: angústia de começar / intervalo / angústia pelo tempo decorrido).

O ambiente permanece inalterado & porque a estadia era provisória não tirei as imagens da gaveta para enfeitar a casa. Mas dois meses viraram três e contando. Então comprei fita durex, a única disponível no mercado, do tipo fininha. Aliás, no mercado encontrei o Carlos; falávamos do Carlos indo para Santa Maria e eu não imaginei que sentiria uma alegria tão grande em encontrá-lo. Fiquei sorrindo escondido atrás da pff2, acho que ele percebeu. “Vamos marcar um encontro da turma quando passar”. Vamos. Eu quero matar até a saudade que ainda não nasceu. Voltei & a fita deu conta. Com ela colei até a bandeira Wiphala, através dos seus barbantes. Ela ficaria melhor pendurada nos beirais, mas não foi possível dessa vez. Organizei os postais (guatemala, itália, alemanha, estados unidos); as obras de arte; os mapas; todas elas, enfim, as imagens. O arranjo é improvisado, mas pelo menos agora posso me deitar em um mundo minimamente familiar, mi mundo de imágenes, que se mueven a mi voluntad*.

*Versos de “Mundo de imágenes”, da colombiana Banda Nueva (1974)

10 de abril de 2021

Algo estranho se passa. Outra vez um louva-deus se aproxima e pousa perto de mim. Já é a segunda vez nesta semana, a terceira neste mês. Olho bem para seus ocelos, em conjuntos pontilhados nos extremos de sua cabeça alongada. O tórax longo como um pescoço. Os braços recolhidos em posição tirânica. Este que veio hoje é grande como pousasse na palma de uma mão ocupando-a por completo e voa com maestria. Há dez minutos se equilibrou no varal interno da casa e não se move. Sua lentidão se compara à dos brotos de melancia. Eu evito observá-lo, oferecendo-lhe apenas o rosto em perfil — quero ver se ele cai em minha armadilha. Como se, percebendo minha ausência, avançasse em seu plano misterioso. Ele não cai. O que quer um louva-deus pousado à meia-noite na escuridão do quarto? O que querem de mim, um, dois, três, os incontáveis mantídeos? Não suporto por muito tempo distanciar o olhar e me curvo para conferir o bicho. O equilibrista é sábio, não se deixa enganar. Estático, esfinge absoluta da floresta, ele me devora lentamente e eu perco o sono mais uma vez.

21 de abril de 2021

Para encontrar uma coincidência é preciso ter em mãos um abridor de entardecer. Explico: um abridor de entardecer (aos modos do abridor de amanhecer de Manoel de Barros) serve para que a gente encontre na rotina aquelas horas instáveis que nos fazem hesitar. Chegamos a ter pele de galinha. Frieza dentro. Coriza ou zumbido na orelha. Olho pregado no nada. Estômago crivado de crisálidas. Coisas que chegam ao corpo nas horas de espanto, quando um entardecer tira a gente do prumo. Mas é preciso estar disponível para isso. É preciso abrir o entardecer com muito cuidado e lentidão, todos os dias se possível. Para respirar um pouco o ar da loucura que nos permite experimentar o mundo. Sem isso o entardecer é só um sol que se esconde atrás das platibandas, onde os anjos brincam de esconde-esconde.

04 de maio de 2021

Serei breve: estou fazendo o desjejum, granola etc. Antes estava catando marimbondos. Eles, só pode ser que foram expatriados, estão por todos os lados. Alguns resistem pendurados no teto, mas eventualmente se arrastam moribundos pelo chão. Aí eu tenho que puxar a vassoura do canto da sala e ir espanando pra fora, ou pegar com uma folhinha de papel, equilibrar muito bem o animal enquanto caminho para a janela, até sacudi-lo no gramado. Quando me levantei, um deles chegou a pousar em minha blusa e escalar o pescoço; o bicho estava mangando de eu, nitidamente perturbado com sua morte iminente. Neste caso, meu corpo foi o veículo. Abri a porta da rua, caminhei até o sulco profundo feito pela ribeira e saltei lhe roubando as asas.

4 Comments
  1. LAMA Seca disse:

    09 de agosto de 2021
    Deitado no tapete, lendo, sentindo cheiro de poeira, tomando coragem para iniciar a escrita do dia, me inspiro a pensar:
    Na braquitude dos dias que seguem, e as vezes me ultrapassa, olho em volta e não tenho imagens para penduradas nem vontades de bandeiras, me sinto marimbondo moribundo, que sabe que os postais serão mais caros agora e que talvez em alguns lugares eles nem cheguem. Sinto que não pude confeccionar a minha própria crisalida, que no agora me parece mais uma mortalha. Não sabia o que era um Mantídio, mas sigo sabendo que aquilo que os ocelo viram me alegram e preenchem de proposito, é muito bom ter você como amigo.

    1. Ivete da Silva disse:

      Lindo! Queria saber escrever assim. Beijos da Terra de Makunaima

  2. Parabéns, Victor. Fragmentos que revelam um pouco de seu olhar ao mundo.

  3. Mariah disse:

    Belezas no olhar! Muito bom.

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