Enquanto as roupas secam

Primeiro livro da coleção haimi será oficialmente lançado em 07/04, às 19h, pelo instagram da editora, em conversa com o autor. Enquanto as roupas secam, já é possível encomendar pela loja.

Eliminar tudo até que reste apenas a poesia. É mais ou menos assim um dos preceitos do wabi-sabi, tradicional filosofia e estética japonesa, articulada sob três fundamentos: impermanência, incompletude e imperfeição.

No gigantesco e sofisticado caldeirão da cultura japonesa, wabi-sabi, diretamente associado à cerimônia do chá, também se mescla, em muitos aspectos, com a tradição zen e o haicai. Comum a todas essas tendências, a trama cosmológica e estética composta de tecidos simples e singelos, puro refinamento da matéria e dos fenômenos. Vale não o grandioso e o eloquente, mas os seres e coisas ordinários, pequeninos e abundantes: roupas, varais, pregadores, cigarras.


Conheci William na oficina de haicaida Fazia Poesia, em 2020, ministrada por Heberton Baptistela, professor e haijin afiado.Meu espanto foi encontrar, ali, tanta gente ávida pela tradição e sagaz na composição. Por essas e outras, lembro que o Brasil atual, nos recantos da produção poética nacional ou não, é celeiro de haijins, numa prática dedicadíssima, polifônica e singular, que mantém a tradição japonesa e inova no sincretismo nipo-tupiniquim.


Desde a oficina, não parei de acompanhar o trabalho de William. No final de 2021, na espontânea e singela ocasião da publicação do minilivro rés|chão, coletânea de haicais, não houve dúvida sobre o convite; e, para a alegria da Casatrês, tampouco na aceitação: William aparece com dez haicais, todos pinçados com delicadeza. Alguns deles, agora, desembocam nas águas de Enquanto as roupas secam.


A poética de William mistura calor e rigor. O erotismo é humano e vegetal, dos corpos e das plantas. Versos adensados nos trópicos — Teresina, Piauí. Capital que, como quase todas do nordeste, borra a passagem das estações: o verão reina (para os chegados), ou tiraniza (para os não chegados). Desafio para o haijin: colher kigôs em terra onde o verão é perpétuo.


Tanto para os haicais quanto para os poemas em verso livre, há intenso e apurado jogo de palavras. Sua minúcia à forma é trabalho de artesão: nenhuma sobreposição, espaçamento, quebra é em vão. Seus kirejis (característica de quebra do haicai que, comumente, é simbolizada por um travessão) são sinais vazios, ou seja, específicos espaçamentos entre linhas. O poeta lapida o conjunto de palavras influenciado pela força do branco da página; entalha as letras para que estas ganhem consonância com o vazio e o silêncio. Traço fino, concreto, em confluência com a vacuidade poética.


Historinha para sintetizar a percepção da vida wabi-sabi, que é mais ou menos assim: sob orientação do mestre, o discípulo varre a calçada em frente ao templo. Minucioso, exigente, exagera: varre até o último resíduo, e a calçada fica estéril. O monge percebe e, então, sem palavras, demonstra o toque final: balança algumas árvores, com leveza e cadência, para fazer cair, sobre o pavimento limpo, apenas algumas folhas secas. Eliminar tudo até que reste apenas o canto da cigarra enquanto as roupas secam.


A Casatrês pretende, a partir deste ano, fomentar a coleção Haimi — termo que pode ser traduzido como “sabor de haicai”. Por meio da coleção, nosso objetivo é publicar livros de haicais, haibuns e de natureza e gêneros semelhantes. Alegria divulgar Enquanto as roupas secam, pequenino, precioso, como estreia da Haimi.

— Felipe moreno
escritor e editor da Casatrês

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