Ser casa

Negar as demandas de uma casa ou delegá-las a alguém é, no mínimo, perder a oportunidade de aprender a lidar melhor com a matéria e consigo.

João de Barro
arquiteto alado
construtor sublime
das conhecidas
formas arredondadas
adornos para árvores
postes
motores de ar condicionado
João é de barro
sua casa também
João é a casa que fez com o bico
para guardar o filho que vem

Na maior parte do tempo, somos capazes de nos reconhecer apenas naquilo que fazemos, e somos capazes de cuidar apenas do que nos gera este sentimento de identidade. Construir a própria casa é raridade. (Coisa de pobre, coisa de hippie.) Da decoração ainda damos conta, embora muita gente já contrate outras gentes para fazer o trabalho. Uma pena. A decoração — depois da construção, que é mais complexa e inacessível para a maioria — pode trazer um profundo sentido de pertencimento — e, portanto, responsabilidade — por um ambiente. Exige um exercício de criatividade, de compreensão dos espaços e suas funções. É uma habilidade a ser desenvolvida, que não tem como única finalidade a eficiência da movimentação e do uso da matéria, mas abarca o cuidado estético.

Morar em uma casa agradável aos olhos pode não ser um desejo supérfluo, desde que essa curadoria seja realizada com presença. Presença significa aceitar certos cantos como são, e fazer o que for possível por eles; aceitar a impermanência de objetos, rotinas e habitantes; permitir a evidência do afeto de todos/as nas escolhas; gastar o mínimo dinheiro e conceber o máximo de soluções com o que já existe na casa, ou seja encontrado no lixo (recomendo verificar o dia em que a empresa de recolhimento de resíduos da sua cidade vai realizar a coleta de grandes volumes no seu bairro este ano. É uma noite e tanto para ver na rua a única tok & stok possível em tempos de ilha de plástico). Decorar com presença fortalece os laços entre nós e a matéria, e isso não é pecado: somos feitas de carne e osso, comemos, pisamos, tocamos, dependemos da matéria. É um laço desapegado, um laço compreensivo, de cuidado, acima de tudo. (Reitero que não estamos em posição de jogar fora só porque podemos comprar um novo. Temos, ao contrário, a responsabilidade de reaproveitar o que pudermos e cuidar muito bem até que se desfaça — e tomara que se desfaça: estranho é o que dura para sempre.) Gostamos de olhar, de estar em meio ao que consideramos belo — se o belo é uma questão de simetria, similaridade com o humano, construção social ou todas as alternativas anteriores, é outra história. Cores e formas têm mensagens implícitas que nos produzem afetos e nos colocam em um ou outro estado emocional, nos influenciam a tomar uma ou outra decisão. Um exemplo: tente preparar uma refeição em uma cozinha com louça em todas as superfícies, fogão sujo e pia engordurada e observe seus sentimentos, ou experimente concluir um trabalho em um quarto coberto com roupas emboladas — você nem sabe quais estão limpas e quais estão sujas — , cornucópias de louça suja em caixas de pizza e móveis dispostos aleatoriamente (aleatório no sentido da falta de bom senso para a utilização do espaço sem deixar mindinhos em quinas). É claro que este exercício só vale para quem entende o que significam os termos “cozinhar”, “louça acumulada”, “pia engordurada”, “utilização do espaço” etc. e tudo o que existe por trás deles.

E divaguei até aqui para chegar justamente no ponto de que há quem não se reconheça nem na decoração, nem no que é ainda mais simples: lavar louça, arrumar estantes, esfregar o chão, tirar o lixo. Não sabe como nem porquê (uma mulher sempre fez por ela/e) ou acha que não é trabalho para alguém da sua estirpe (uma mulher pode ser paga para fazer por ela/e). Somos uma geração de jovens (com atenção para o recorte de classe) que acessam os meios de informação, discutem a precarização dos trabalhos, a política internacional e a reforma agrária comendo tapioca feita em um fogão gosmento, numa mesa revestida de farelos, sacolas vazias e cinzeiros transbordantes. O ralo do box cultiva um monstro, o vaso está mijado, os panos de louça que vieram branquinhos e cheirosos da casa da mãe há dois meses ainda não foram lavados e estão mofados, fedendo a restos de comida. O sistema é uma merda, mesmo. Uma outra geração vai ao restaurante e se empanturra de bife à milanesa enquanto a Dona Maria, que já é da família, está sozinha no apartamento fazendo a faxina (na minha época era mais fácil, não tinha que ficar dando folga e pagando férias).

Uma casa viva transpira demanda, como qualquer corpo vivo. O abandono da casa é o abandono de si. Alguém que consegue manter os ambientes coletivos bem limpos e organizados, mas não é capaz de colocar em ordem o próprio quarto: dentro de mim, ninguém entra — nem eu mesmo. Com o exterior em harmonia, não se desconfia do meu caos e não se fala na necessidade de adentrar esta bagunça de meias e mágoas para trilhar o longo e árduo caminho de desfazê-la. Um depósito de objetos renegados, pó e animais rastejantes é o habitat das memórias abandonadas, dos sentimentos recalcados, dos projetos não terminados. Os acumuladores se agarram em qualquer escassez. Quem delega as demandas a alguém, mesmo sendo totalmente capaz de supri-las, perdeu a autonomia sobre si. O inferno são os outros, minha autoestima pode ser resolvida com um “banho de loja” (expressão nojenta, diga-se de passagem. Imaginar sua literalidade é claustrofóbico, no mínimo), um novo suplemento, um novo coach, e por aí vai. Não encosto em sujeira, alguém que faça minha comida, alguém que leve meu lixo lá fora. Não se responsabilizar pelos cuidados com a própria casa é estar convencida/o de que alguém estará disponível para resolver para você aquilo que você não está disposta/o a resolver (dentro ou fora do limite da sua pele). E quem trabalha para suprir a demanda dos outros, que faz com a própria demanda?

útero: primeira casa
casa: lugar-útero
quem escolhe ser casa
se vê na bagunça
rega as plantas como quem bebe água
o fogão esquenta quando o coração transborda
abre as janelas
deixa que a sujeira entre sem esquecer de limpar
sabe o que tem na fruteira e quanto tempo vai durar
as torneiras tem seu jeitinho, há de se ter cuidado na hora de girar
vidro sujo é olho que não quer ver lá fora
esta mesa manchou no dia cinco, quando fizemos risotto
faz duas semanas que o cacto não recebe água
o ser-casa não esquece detalhe
conhece cada rachadura
das paredes e dos dedos
arruma o porão sem pressa e sem medo

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