Farfalhada #1

Idas ao centro, vírus à espreita

Fui à rua e esqueci de levar caderno e caneta. Um pecado, porque escrever é caminhar, escrever é transitar, escrever é ver gente. Escrever é insistir em escrever e, além disso, é caminhar, transitar, ver gente. E repetir essa rotina até o fim da vida.

Se munido dos meus singelos instrumentos de trabalho, teria-os sacado do bolso e rabiscado que, pelo recorte do centro de uma cidade grande, de um país latino-americano eternamente emergente, em perpétua crise econômica, em tempos de pandemia, ao fim de julho, dias frios, cinzas e secos, é fácil dizer que o mundo já acabou.

O morador de rua, sentando em frente a uma loja, vendendo balinhas numa caixinha de papelão, tem casaco, mas não calça: veste uma bermuda de tactel e chinelos. Faz treze graus em Florianópolis e suas canelas estão roxas. Não usa máscara. Quando o vírus chegou na cidade, ele já devia viver nas ruas. Talvez, a essa altura, já esteja imune. Como os dois hare krishnas que também sempre estão pelas ruas mais movimentadas, abordando quem os atravesse ou faça a mínima troca visual, para proferirem o Bahgavad Gita. Muitas vezes encontro ambos com as máscaras abaixadas e desconfio que eles não acreditam na pandemia. Nesse sentido, entram para o balaio dos religiosos nocivos: a consciência de Krishna pode proporcionar a iluminação, apresentar a realidade suprema, mas não vai curar o vírus que se alastra no pulmão de um senhor de 82 anos.

Uma loja chinfrim, de roupas cafonas. Na entrada, um manequim de pernas e glúteos: a reprodução plástica de um corpo feminino escultural, com coxas torneadas e bunda definida e avantajada. E as calçadas são dos camelôs: dezenas de barracas e lonas estendidas ao chão, uma do lado da outra. Infinitas quinquilharias plásticas, dentro de películas de plástico, todas produzidas na China. A China inundou o mundo de plástico e agora está prestes a protagonizar uma nova revolução. Durante a segunda metade do século vinte, esse gigante asiático, após a adoção de uma estratégia monstruosa, sem precedentes na história, reproduziu até o infinito as tralhas que o Ocidente, sobretudo os EUA, inventaram e transformaram em necessidade. Mas agora os chineses não vão apenas reproduzir objetos de plástico e exportar ao mundo, mas criar: a revolução que desponta migra do plástico ao dado, do mero objeto material à sofisticada vigilância computacional. A cultura chinesa moderna, pós-revolução, em muitos sentidos, me gera pânico tanto quanto as piores agruras da cultura capitalista. Temo uma ordem global liderada pela China na mesma proporção em que temo a manutenção do imperialismo norte-americano.

Na loja de aviamentos, escolhendo linhas para costurar cadernos, converso com a funcionária. Ela me diz que os moradores de rua não contraem Covid-19 porque seus corpos são tão fracos, suas alimentações tão escassas, desreguladas e de baixo valor nutritivo que nada acontece com eles. É um argumento absurdo, mas não retruco. Ela também acredita que, em dezembro, estaremos livre desse sofrimento, sobretudo o de ter que usar máscaras: “Oito horas por dia de trabalho com isso no rosto. Não aguento. Tenho dor de cabeça de tanto puxar o ar mais forte. E o pior é a rinite que esse troço me causa”. Situação muito mais dramática é a do seu irmão: 37 anos, dependente químico — cocaína e crack —, portador de HIV. Passa muitos dias na rua e ela já não se comunica com ele há quatro meses.

Apesar de tudo, a funcionária da loja de aviamentos tem um humor excelente, muita energia e disposição. Nesse aspecto, se difere completamente de muitos jovens da minha idade que não precisam trabalhar, nem usar máscara de proteção durante oito horas por dia; não têm um irmão dependente químico e com aids e, no entanto, não conseguem levantar da cama, pensam em suicídio dezenas de vezes ao dia e precisam se entupir de remédios (são dependentes dos químicos que a indústria produz).

Estacionei minha bicicleta num poste de esquina, com cadeado grosso. Quando fui buscá-la, ela não estava mais lá. Com o corpo gelado, o coração começando a acelerar, olhei ao redor, passei a mão na cabeça. Em outros tempos, o desespero teria sido maior, o corpo estremeceria mais, o coração bateria mais forte. Mas as constantes práticas de meditação dão sustentação e segurança para qualquer situação, inclusive nas que suscitam pânico.

(Quando eu era criança, no início dos anos 2000, vi uma mulher humilhar o segurança do estacionamento do shopping porque ela jurava que seu carro havia sido roubado. Gritava e gesticulava, os olhos arregalados: “Meu carro estava aqui, na B22”. Só uma hora depois ela mesma se deu conta que tinha largado o carro na C22, andar de cima.)

Sinto o corpo, a respiração, o coração. Analiso o ambiente, remonto o percurso, para me certificar se, de fato, a bicicleta estava ali. Miro a quadra da frente e reconheço: foi ali que deixei a bicicleta. As ruas, lojas e pessoas do centro são todas muito parecidas. A sensação de alívio despenca pelo corpo. É impressionante como nosso organismo pode passar de estados extremos de um segundo a outro.

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