Caseiríssimo – o podcast da Casatrês

Caseiríssimo
Caseiríssimo
Divagações na mesa de jantar ou no sofá da sala de estar. Debate em domicílio. Quase sempre sobre sociedade e comportamento. Algumas pinceladas filosóficas, outras mais literárias. Isenção da grande convicção; apego a qualquer dúvida. Somos três: Christiana M. Andrès, Felipe Moreno e Marília D. Jacques. Gostamos do debate como gostamos da nossa casa.
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Não é nenhum exagero afirmar que, caso a produção e o consumo de carne brasileiros não começarem a reduzir drasticamente, a partir de agora, o futuro é hostil. Há estreita relação entre a dieta carnívora e a devastação ambiental. As ameaças ou consumações dos atuais extermínios indígenas também estão diretamente vinculadas ao bife que chega no prato de milhões.

Cerca de 80% do que é desflorestado na Amazônia, Pantanal e Cerrado torna-se pasto; 80% da carne bovina produzida no Brasil é consumida por nós mesmos. A pandemia de amanhã pode surgir em terras brasileiras, fruto do desmatamento, e este, quase em sua totalidade, fruto da pecuária. Não enxerga a duríssima, a árida, a deteriorada realidade quem, de fato, ainda não havia se informado. O resto, que enxerga, sabe, mas nada faz, assim age por imobilidade.

O terceiro episódio do Caseiríssimo é em tom expressivo. A incoerência abissal é a seguinte: a boca que discursa em prol da preservação da Amazônia também a devora. A boca que exige demarcações de terras indígenas também contribui para a destruição das terras indígenas. Pensadores/as e intelectuais de esquerda precisam fazer uma autocrítica específica, crucial, que diz repeito à incoerência de manter um discurso preocupado com as causas ambientais sem abandonar a dieta onívora. O boicote que muitas pessoas promovem a marcas, empresas e artistas também tem que ser praticado contra a força destrutiva da agropecuária alicerçada pelo agronegócio.

A Amazônia está pegando fogo: um fogo de demanda por consumo de carne. O absurdo da catástrofe ecológica também é o absurdo da passividade, da incapacidade de assumir responsabilidades. Ou mantemos a floresta (e a possibilidade de vida) ou mantemos o churrasco. Radical não é apenas o nosso discurso: radical é a realidade que devemos encarar de frente. Para a possibilidade de uma vida digna no século 21, deve haver um pacto de frugalidade global, em detrimento do nosso atual modo de vida que arrebenta com o planeta. Para a esquerda, só há um caminho: abraçar o princípio ecológico.

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